terça-feira, 30 de abril de 2013

feriados



Ducktails - Letter Of Intent

coisas simples

«Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.»


José Saramago

doping



Daft Punk ft. Pharrell Williams - Get Lucky

'semiótica do palavrão'

«Em nen­hum outro lugar do país se fala um por­tuguês tão rico como no Porto. Perdoem-me os bem-falantes de todas as lat­i­tudes, mas eu, que já morei em muitas ter­ras, nunca vi acari­ciar as palavras como no Porto. E não me refiro às camadas cul­tas. Por mais que isto custe aos lusos doutores, na Invicta, o povo apoderou-se do Verbo. “No Porto?”, pas­mará um lis­boeta. “Eu quando lá vou só ouço palavrões!”. Pre­cisa­mente. Esse é um exem­plo fasci­nante. No resto do país, os palavrões são usa­dos em situ­ações extremas, para mostrar desagrado por uma situ­ação, ou para insul­tar alguém, que pre­tendemos rebaixar. E, usando-os, rebaixamo-nos a nós próprios tam­bém. É para isso que servem: para reduzir à obscenidade.
No Porto, os palavrões não são obscenos: são uma arte e uma filosofia. Não sei se algum lin­guista anal­isou alguma vez este fenó­meno. Mas valia a pena. Primeiro porque, no Porto, os palavrões são fiéis à sua natureza — são vul­gares e ordinários. Não são, como noutras regiões, raros e extra­ordinários. São de todos, e não de uma elite inde­cente. Depois, porque servem para exprimir uma sabedo­ria.

A tác­tica é esta (e digo-o com todo o respeito e admi­ração pela terra onde nasci): há um jogo de metá­foras, todas elas ref­er­entes ao acto sex­ual, que servem para com­preen­der a vida. É um uni­verso alegórico em que o sexo não é mais do que um exer­cí­cio util­i­tarista de dom­i­nação e humil­hação, uma econo­mia do dar e do rece­ber, um negó­cio de favores, promes­sas e cobranças. Visto desta forma, a vida erótica com­porta uma panó­plia de situ­ações que cor­re­spon­dem a out­ras tan­tas da vida em geral.

Atenção, trata-se de um jogo tác­ito, e não de um machismo emped­ernido ou um marx­ismo de caserna. Por exem­plo, se se disser que alguém “apan­hou no c. e nem piou”, isto sig­nifica que foi vítima de um abuso tão descarado que nem teve tempo de protes­tar. A expressão aplica-se a situ­ações tão vari­adas como ter pago um preço exager­ado num restau­rante ou ter sido des­pe­dido sem justa causa. Parte do princí­pio de que o sexo anal é um acto de prazer uni­lat­eral, que implica por­tanto a humil­hação do sujeito pas­sivo.

Por outro lado, a expressão “tenho apan­hado muito no c.” sig­nifica que já sofri muito na vida, pelo que estou preparado para grandes desafios. Uma expressão equiv­a­lente mas talvez ainda um pouco mais amarga é “eu já fiz muitos b.”
Se alguém respon­der a um pedido ou uma pro­posta com a frase “na c. da tua tia!”, isso sig­nifica uma recusa peremp­tória, como quem diz “isso é que era bom!” ou “isso é o que tu que­rias!”, numa alusão ao even­tual desejo sub­lim­i­nar e incon­fes­sado de ter acesso às partes ínti­mas de fig­uras respeitáveis da família. Mas, se a frase for “até rima da c. da tua prima”, sig­nifica um sinal de cumpli­ci­dade. A sim­ples alter­ação do grau de par­entesco implica uma revi­ra­volta semân­tica. É todo um jogo de sub­tilezas. Mais um exem­plo: as elocuções “p. que te pariu” ou “filho da p.” são inequiv­o­ca­mente neg­a­ti­vas, pois pres­supõem que a mãe do inter­locu­tor seria uma tra­bal­hadora do sexo, pelo que o coito que deu origem àquele terá sido, não de amor, mas um acto mer­can­til. Pelo con­trário, dizer “meu grande filho da p.” é um gesto de car­inho, talvez por sug­erir que o indi­ví­duo em causa, por se ter com­por­tado como um grande filho, merece o respeito e a pro­tecção da sociedade, ape­sar das cir­cun­stân­cias pouco aus­pi­ciosas em que foi con­ce­bido.»


aqui

quarta-feira, 24 de abril de 2013

feriados a meia da semana



Toro Y Moi - Say That

parábola de uma ida ao supermercado



Fat Kid on a Rollercoaster

N.B. - o puto gordo sou eu a tentar escolher as melhores laranjas; a senhora a rir-se à despregada é a idosa que normalmente está ao meu lado...

terça-feira, 23 de abril de 2013

lambarices



Alex Turner - Stuck On The Puzzle

amor & coisas (que não são assim tão) simples

«Two people shouldn't know each other too well if they want to fall in love. But then maybe they should not fall in love at all.»

Eclipse, 1962

segunda-feira, 22 de abril de 2013

lambarices



Hot summer nights mid July
When you and I were forever wild
The crazy days, the city lights
The way you'd play with me like a child


[...]

Hot summer days, rock and roll
The way you'd play for me at your show
And all the ways I got to know
Your pretty face and electric soul


[...]

Dear lord when I get to heaven
Please let me bring my man
When he comes tell me that you'll let him in
Father tell me if you can

Oh that grace, oh that body
Oh that face makes me wanna party
He's my sun, he makes shine like diamonds


Lana Del Rey - Young and Beautiful

coisas simples

«They told me that to make her fall in love, I had to make her laugh. But everytime she laughs, I am the one who falls in love.»

Tommaso Ferraris

doping



Pixies - Hey

lambarices



Pita de Cascais por Salvador Martinha

sexta-feira, 19 de abril de 2013

vamos lá fim-de-semana, faz a tua magia



Elvis Presley - Heartbreak Hotel

lambarices

Notas para um discurso no futuro próximo

Portugueses,
O Governo, preocupado com o aumento do desemprego, criou legislação que permitiria reduzir a taxa de desemprego em 50 por cento. Era uma medida corajosa que consistia no seguinte: executar, com um tiro na nuca, 500 mil desempregados. Mais uma vez, o tribunal rejeitou a medida por violar aquilo a que os juízes chamam, naquele jargão jurídico impenetrável, a "lei". Como já tem vindo a ser habitual, os tribunais ignoram a situação económica de emergência em que nos encontramos e, alegando mariquices como a conformidade às leis fundamentais do País, impedem que se faça aquilo que tem de ser feito. Essa atitude, como é evidente, bloqueia a acção do Governo. Perante o que se tem visto, parece-me desnecessário sequer colocar à consideração do Parlamento a criação do campo de concentração para reformados, ou o fuzilamento dos professores excedentários, uma vez que é sabido, de antemão, que serão rejeitados pelos tribunais com base num pormenor técnico qualquer.
Aquilo que aconteceu com o Orçamento Geral do Estado, que foi vítima de uma má vontade que nenhum outro documento oficial alguma vez teve de suportar, ainda está bem presente na memória de todos. Ao fim de 50 dias, disseram que o orçamento estava errado. Ao fim de 90, disseram que era ilegal. Não me surpreenderia que, dentro de uma semana ou duas, alguém dissesse que o orçamento era pedófilo. Encontramo-nos neste nível de embirração. Parem de ser picuinhas e deixem-nos governar.
Pelo segundo ano consecutivo, o Tribunal Constitucional chumba artigos do Orçamento de Estado. Estamos perante um vício - e um vício caro, uma vez que são artigos que custam milhares de milhões de euros. Trata-se de um escândalo que os juízes do Tribunal Constitucional se permitam provocar um desvio destes nas contas públicas. A única pessoa que está autorizada a provocar desvios colossais nas contas públicas é o sr. ministro das Finanças.
Vivemos tempos difíceis. O sonho de Francisco Sá Carneiro era: um Governo, uma maioria, um Presidente. Eu, como disse há dias Ricardo Araújo Pereira (é mesmo engraçado, aquele rapaz), sonho um pouco mais alto: só me satisfaço se puder governar com um Governo, uma maioria, um Presidente e a Constituição de 1933. Com a que temos neste momento, que vigora há mais de 30 anos e foi aprovada com os votos favoráveis do partido a que presido, descobri agora que é impossível.
O ainda primeiro-ministro,
Pedro Passos Coelho


RAP, aqui

lambarices



Kings of Convenience - Envoy

'e eu com o melhor sorriso que sei agradeço tudo'

Abres a bolsinha de lona

Abres a bolsinha de lona
cheia de postais ilustrados: as tuas
índias inevitáveis, imagens com velhos
comboios parados - as coisas que
me ensinas desses lugares, é pouco o que
conheces, mas gostas tanto. Olho
enquanto falas e penso às vezes que
uma boca é a melhor forma de
recordar outra, assim um estupro
sereno.

No mesmo sentido que nós a luz vem
vagueando timidamente. Dói-me
o corpo, como depois de uma sova,
de mãos nos bolsos, um filme muito
parado e um rio cansado em fundo.
O preguiçoso desenho de ruas debaixo
de um rosa escuro, de trovoada,
na bulha do silêncio a urze rebentando
nos muros entre as frases já sem amor,
a passagem comida por urtigas,
flores carnudas, músculos de cor
e uma água lenta que diz baixinho
esta doce tensão.

Viemos de uma adolescência inquieta
e deslocada, hoje já somos de fins de tardes
e cantigas populares, dos trocos para a cerveja,
das pequenas desobediências e desse verso
malcriado, deitando a língua de fora
à filinha dos beatos, os da lírica, sempre
tão chatos.

Cada vez penso mais, cada vez sinto
menos. As mãos insuficientes esfregando-se
no último calor da tarde. Não sei onde
vamos. Junto à estrada um miúdo
com uma cana - de um lado para
o outro e o assobio antes de cada golpe -
decepando girassóis na hora em que
a sombra lhes dobra a cabeça.

Alguns passos, aquela cumplicidade
entre estranhos, frouxos e anémicos
à entrada de um café. Sobras de
um verão perdido, outro que virá
sobre estas mesas poucas. E há um
com uma canção distraída nos lábios
e os sumidos acordes de uma viola toda
podre a ronronar-lhe no colo.
Tudo me parece tão ameaçado.

A noite foi espessando aos poucos,
por cima de nós um punhado de astros
alinham-se lá no seu acaso
e tu apontas logo uma constelação,
contas-me sobre um mito qualquer
e eu com o melhor sorriso que sei
agradeço tudo.


Diogo Vaz Pinto

quinta-feira, 18 de abril de 2013

primavera



Kurt Vile - Wakin On A Pretty Day

motes

Homens sem Mulheres

Durante meses ou anos (ou,
em todo o caso, um múltiplo
de semanas) trazia debaixo
do braço, com os livros da lei,
Men Without Women,
de Ernest Hemingway.
Hábito exterior de mostrar
leituras ou de passear,
como legendas, frases sintéticas
e duras, não o tolerava
nos outros, mas só em mim,
na minha edição velha
e laranja da Penguin.
Eu não queria que o livro
terminasse, e o plural
do título era um disfarce.


Mestre

doping



The Virgins - Flashbacks, Memories and Dreams

amor & coisas (que não são assim tão) simples