sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
acorde(s)!
Devendra Banhart - Für Hildegard von Bingen
N.B. - especial agradecimento à Mais-que-Tudo.
seguro-o
«Se estiver tudo errado, comece novamente. Se estiver tudo certo continue. Se sentir saudades, mate-a. Se perder um amor, não se perca. Mas, se o achar, segure-o.»
Fernando Pessoa
Fernando Pessoa
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
grandes rebeldes
«Herberto Helder é a prova de que a poesia não perdeu ainda completamente o seu poder de irradiação
Quando aparece um novo livro de Herberto Helder, como aconteceu este ano, o curso habitual do nosso mundo literário, o pequeno sistema que o alimenta e lhe dá forma, interrompe o seu curso, entra em sobressalto e declara o estado de excepção. Foi o que sucedeu com Servidões, objecto de uma corrida especulativa ainda os três mil exemplares da edição única não tinham chegado às livrarias. De repente, toda a ordem editorial e o sistema de comercialização dos livros foram assaltados na sua lógica, até pelas imposições de uma soberania autoral — um exercício olímpico de autonomia e autoridade simbólica do poeta — de carácter intempestivo, isto é, que não coincide exactamente com o seu próprio tempo.
Os motivos do assalto podem ser muito mais profanos do que o objecto que os sustenta, mas valem, pelo menos, como sintoma de um poderoso efeito de Herberto Helder na literatura portuguesa contemporânea. O seu “ofício cantante” traz consigo uma memória da poesia e da figura do poeta que dificilmente imaginávamos que podia ser restaurada e para a qual talvez seja necessário usar uma noção do campo da teologia, que Walter Benjamin reactivou no plano da obra de arte: aura. Acresce que a total ausência do poeta no espaço público mediático é um factor de intensificação da aura.
Vindo do fundo dos tempos, sem deixar de ser profundamente de hoje, a poesia de Herberto Helder nasce de uma experiência anacrónica do tempo histórico, de uma constelação de tempos e geografias diferentes, onde, por exemplo, a poesia mais moderna se encontra com a palavra poética de universos mágicos, ainda não secularizados. Deste modo, ela abre uma perspectiva que não tem nada da continuidade narrativa que subjaz a esta ideia de história. E, por isso, pode constituir um rectificativo ou mesmo uma desautorização destes balanços ritualizados na sua cadência, aptos a criar a falsa aparência de que o tempo se converte imediatamente em história, numa incessante actualização que satisfaz a exigência de novidade — esse traço niilista e decadente.
Em suma: há na obra de Herberto Helder uma razão poética que não coincide com a razão histórica em que estamos mergulhados. E é precisamente esse desajuste que fascina, interrompe e aterroriza. Porque ela situa-se claramente do lado do terror. A força mágica da palavra poética, o estremecimento perante novos universos — diabólicos — de significação, a força da proferição: é a esta experiência que acedem os leitores de Herberto Helder.
Mas Servidões não é o único livro de poesia da lista, nem o seu autor eclipsa os seus contemporâneos. O que prova que a poesia não perdeu ainda completamente o seu poder de irradiação. Obrigada a uma circulação muito mais restrita, ela beneficia no entanto de uma autonomia que as regras do campo literário já não concedem ao romance.
O modo como cada um dos intervenientes na elaboração desta lista entende que, a par de muitas outras incomensurabilidades, há também aquela entre a literatura nacional, por um lado, e as literaturas traduzidas, por outro, determina certamente as escolhas. A lista, pela quantidade de livros portugueses que exibe, mostra que há alguma tendência para considerar separadamente a literatura nacional e não deixar que ela se dilua completamente na massa dos livros traduzidos. De facto, nos últimos anos cresceu de maneira avassaladora a literatura traduzida.
Mas, paradoxalmente, isso não significa que tenha aumentado a diversidade dos géneros e dos tipos de livros e se tenha alargado o leque das literaturas nacionais com presença satisfatória na edição portuguesa. Pelo contrário, ao enorme aumento corresponde um simétrico estreitamento da diversidade dos géneros e das representações nacionais. A literatura de língua inglesa fornece o contingente esmagador dos livros traduzidos, e o que sobra são uns títulos avulsos cuja origem se distribui pelo continente europeu e pelo resto do mundo. Mesmo literaturas com as quais mantivemos ao longo da história um diálogo fecundo e que sempre considerámos mais próximas (a literatura francesa, a literatura espanhola, a literatura italiana, a literatura alemã) não têm hoje qualquer expressão no mercado editorial português.
O fenómeno, sempre crescente, a que temos assistido há mais de uma década pode ser assim descrito: tal como o volume de vendas está cada vez mais concentrado em poucos títulos (o fenómeno do best seller era quase desconhecido em Portugal há 20 anos, enquanto hoje se generalizou) as espécies bibliográficas — sejam elas entendidas segundo o critério dos géneros e formas literárias, sejam elas entendidas do ponto de vista dos temas — e a diversidade linguística diminuíram drasticamente. Os entrepostos de livros em que se transformaram as livrarias só aos mais incautos conseguem esconder que, na verdade, à grande quantidade de títulos novos expostos não corresponde uma real diversidade. A diversidade torna-se mais facilmente encontrável nas poucas e pequenas livrarias independentes que ainda restam, mas que vão sucumbindo em cadeia.
Não há provavelmente mercadoria mais vulnerável ao jogo fraudulento das aparências do que os livros. Por isso, até é possível aparentar uma certa normalidade na edição e no mercado dos livros, quando tudo é anomalia, as regras mais básicas do mercado foram pervertidas e se generalizou uma guerra silenciosa, mas implacável, que condena muitos livros à inexistência ou a uma existência quase clandestina nas livrarias.»
António Guerreiro, aqui, sendo que podem ler um excerto do livro aqui.
Podem ainda escutar os sete primeiros poemas de «Servidões», ditos por Fernando Alves, aqui. Tudo legal, atenção!
Quando aparece um novo livro de Herberto Helder, como aconteceu este ano, o curso habitual do nosso mundo literário, o pequeno sistema que o alimenta e lhe dá forma, interrompe o seu curso, entra em sobressalto e declara o estado de excepção. Foi o que sucedeu com Servidões, objecto de uma corrida especulativa ainda os três mil exemplares da edição única não tinham chegado às livrarias. De repente, toda a ordem editorial e o sistema de comercialização dos livros foram assaltados na sua lógica, até pelas imposições de uma soberania autoral — um exercício olímpico de autonomia e autoridade simbólica do poeta — de carácter intempestivo, isto é, que não coincide exactamente com o seu próprio tempo.
Os motivos do assalto podem ser muito mais profanos do que o objecto que os sustenta, mas valem, pelo menos, como sintoma de um poderoso efeito de Herberto Helder na literatura portuguesa contemporânea. O seu “ofício cantante” traz consigo uma memória da poesia e da figura do poeta que dificilmente imaginávamos que podia ser restaurada e para a qual talvez seja necessário usar uma noção do campo da teologia, que Walter Benjamin reactivou no plano da obra de arte: aura. Acresce que a total ausência do poeta no espaço público mediático é um factor de intensificação da aura.
Vindo do fundo dos tempos, sem deixar de ser profundamente de hoje, a poesia de Herberto Helder nasce de uma experiência anacrónica do tempo histórico, de uma constelação de tempos e geografias diferentes, onde, por exemplo, a poesia mais moderna se encontra com a palavra poética de universos mágicos, ainda não secularizados. Deste modo, ela abre uma perspectiva que não tem nada da continuidade narrativa que subjaz a esta ideia de história. E, por isso, pode constituir um rectificativo ou mesmo uma desautorização destes balanços ritualizados na sua cadência, aptos a criar a falsa aparência de que o tempo se converte imediatamente em história, numa incessante actualização que satisfaz a exigência de novidade — esse traço niilista e decadente.
Em suma: há na obra de Herberto Helder uma razão poética que não coincide com a razão histórica em que estamos mergulhados. E é precisamente esse desajuste que fascina, interrompe e aterroriza. Porque ela situa-se claramente do lado do terror. A força mágica da palavra poética, o estremecimento perante novos universos — diabólicos — de significação, a força da proferição: é a esta experiência que acedem os leitores de Herberto Helder.
Mas Servidões não é o único livro de poesia da lista, nem o seu autor eclipsa os seus contemporâneos. O que prova que a poesia não perdeu ainda completamente o seu poder de irradiação. Obrigada a uma circulação muito mais restrita, ela beneficia no entanto de uma autonomia que as regras do campo literário já não concedem ao romance.
O modo como cada um dos intervenientes na elaboração desta lista entende que, a par de muitas outras incomensurabilidades, há também aquela entre a literatura nacional, por um lado, e as literaturas traduzidas, por outro, determina certamente as escolhas. A lista, pela quantidade de livros portugueses que exibe, mostra que há alguma tendência para considerar separadamente a literatura nacional e não deixar que ela se dilua completamente na massa dos livros traduzidos. De facto, nos últimos anos cresceu de maneira avassaladora a literatura traduzida.
Mas, paradoxalmente, isso não significa que tenha aumentado a diversidade dos géneros e dos tipos de livros e se tenha alargado o leque das literaturas nacionais com presença satisfatória na edição portuguesa. Pelo contrário, ao enorme aumento corresponde um simétrico estreitamento da diversidade dos géneros e das representações nacionais. A literatura de língua inglesa fornece o contingente esmagador dos livros traduzidos, e o que sobra são uns títulos avulsos cuja origem se distribui pelo continente europeu e pelo resto do mundo. Mesmo literaturas com as quais mantivemos ao longo da história um diálogo fecundo e que sempre considerámos mais próximas (a literatura francesa, a literatura espanhola, a literatura italiana, a literatura alemã) não têm hoje qualquer expressão no mercado editorial português.
O fenómeno, sempre crescente, a que temos assistido há mais de uma década pode ser assim descrito: tal como o volume de vendas está cada vez mais concentrado em poucos títulos (o fenómeno do best seller era quase desconhecido em Portugal há 20 anos, enquanto hoje se generalizou) as espécies bibliográficas — sejam elas entendidas segundo o critério dos géneros e formas literárias, sejam elas entendidas do ponto de vista dos temas — e a diversidade linguística diminuíram drasticamente. Os entrepostos de livros em que se transformaram as livrarias só aos mais incautos conseguem esconder que, na verdade, à grande quantidade de títulos novos expostos não corresponde uma real diversidade. A diversidade torna-se mais facilmente encontrável nas poucas e pequenas livrarias independentes que ainda restam, mas que vão sucumbindo em cadeia.
Não há provavelmente mercadoria mais vulnerável ao jogo fraudulento das aparências do que os livros. Por isso, até é possível aparentar uma certa normalidade na edição e no mercado dos livros, quando tudo é anomalia, as regras mais básicas do mercado foram pervertidas e se generalizou uma guerra silenciosa, mas implacável, que condena muitos livros à inexistência ou a uma existência quase clandestina nas livrarias.»
António Guerreiro, aqui, sendo que podem ler um excerto do livro aqui.
Podem ainda escutar os sete primeiros poemas de «Servidões», ditos por Fernando Alves, aqui. Tudo legal, atenção!
lambarices & pequenos estóicos
Ward Miles (o pequeno estóico), First Year
"This video sums up my son's first year. He was born way too early, and the obstacles he had to overcome were really big, but not bigger than our God", Benjamin Miller (o pai do pequeno estóico).
N.B. - peço desculpa pela música mas não fui eu que escolhi.
amor & coisas simples
I see a future with you.
I see a boy and a girl in their twenties,
eloping at dawn, trying to leave this tropical
country they lived in. We are born to be lost.
Yet we will find each other and together
we will turn right to left, north to south and east to west.
I see you in your backpack and I see a girl
in her duffle bag with nothing inside it
but a pair of gloves. You will wear one glove
in your left palm and I’ll wear it on my right
and together we will express our warmth
through stares and sighs. I see a boy and a girl
in their twenties, conquering Europe while inside
a hop on-hop off bus with their unlimited eurail pass.
We shall conquer the trans-siberian railway.
We will kiss in London, make love in Russia
until we have nothing left with us but
passion in Beijing, China. We will do this
for 42 days and honey, I’ll never tire of you.
You are my most awaited autumn.
I do not find this love poetic but not
all poems are beautiful after all. Sometimes
what we have is a love-hate letter.
Messy graffiti on the wall. A post-it note.
War and chaos. Tragedy. But whatever it is
that we have, there is no name for it
and no matter how far we reach in this journey,
one thing is for sure. We will always come home
with and in each other because this is a place
we’ve always belong to.
irishjulienne’s, 'home is wherever i find you'
I see a boy and a girl in their twenties,
eloping at dawn, trying to leave this tropical
country they lived in. We are born to be lost.
Yet we will find each other and together
we will turn right to left, north to south and east to west.
I see you in your backpack and I see a girl
in her duffle bag with nothing inside it
but a pair of gloves. You will wear one glove
in your left palm and I’ll wear it on my right
and together we will express our warmth
through stares and sighs. I see a boy and a girl
in their twenties, conquering Europe while inside
a hop on-hop off bus with their unlimited eurail pass.
We shall conquer the trans-siberian railway.
We will kiss in London, make love in Russia
until we have nothing left with us but
passion in Beijing, China. We will do this
for 42 days and honey, I’ll never tire of you.
You are my most awaited autumn.
I do not find this love poetic but not
all poems are beautiful after all. Sometimes
what we have is a love-hate letter.
Messy graffiti on the wall. A post-it note.
War and chaos. Tragedy. But whatever it is
that we have, there is no name for it
and no matter how far we reach in this journey,
one thing is for sure. We will always come home
with and in each other because this is a place
we’ve always belong to.
irishjulienne’s, 'home is wherever i find you'
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
é isto. e pouca letra!
Um Dó Li Tá
Perguntam-me muitas vezes por que motivo nunca falo do governo nestas crónicas e a pergunta surpreende-me sempre. Qual governo? É que não existe governo nenhum. Existe um bando de meninos, a quem os pais vestiram casaco como para um baptizado ou um casamento. Claro que as crianças lhes acrescentaram um pin na lapela, porque é giro
- Eh pá embora usar um pin?
que representa a bandeira nacional como podia representar o Rato Mickey
- Embora pôr o Rato Mickey?
mas um deles lembrou-se do Senhor Scolari que convenceu os portugueses a encherem tudo de bandeiras, sugeriu
- Mete-se antes a bandeira como o Obama
e, por estarem a brincar às pessoas crescidas e as play-stations virem da América, resolveram-se pela bandeirinha e aí andam, todos contentes, que engraçado, a mandarem na gente
- Agora mandamos em vocês durante quatro anos, está bem?
depois de prometerem que, no fim dos quatro anos, comem a sopa toda e estudam um bocadinho em lugar de verem os Simpsons. No meio dos meninos há um tio idoso, manifestamente diminuído, que as famílias dos meninos pediram que levassem com eles, a fim de não passar o tempo a maçar as pessoas nos bancos, de modo que o tio idoso, também de pin
- Ponha que é curtido, tio
para ali anda a fazer patetices e a dizer asneiras acerca de Angola, que os meninos acham divertidas e os adultos, os tontos, idiotas. Que mal faz? Isto é tudo a fazer de conta.
Esta criançada é curiosa. Ensinaram-me que as pessoas não devem ser criticadas pelos nomes ou pelo aspecto físico mas os meninos exageram, e eu não sei se os nomes que usam são verdadeiros: existe um Aguiar Branco e um Poiares Maduro. Porque não juntar-lhes um Colares Tinto ou um Mateus Rosé? É que tenho a impressão de estar num jogo de índios e menos vinho não lhes fazia mal. No lugar deles arranjava outros pseudónimos: Touro Sentado, Nuvem Vermelha, Cavalo Louco. Também é giro, também é americano, pá, e, sinceramente, tanto álcool no jardim escola preocupa-me. A ASAE devia andar de olho na venda de espirituosas a menores. Outra coisa que me preocupa é a ignorância da língua portuguesa nos colégios. Desconhecem o significado de palavras como irrevogável. Irrevogável até compreendo, uma coisa torcida, e a gente conhece o amor dos pequerruchos pelos termos difíceis, coitadinhos, não têm culpa, mas quando, na Assembleia, um deles declarou
- Não pretendo esconder nem ocultar
apesar da palermice me enternecer alarmou-me um nadita, mau grado compreender que o termo sinónimo seja complicado para alminhas tão tenras. Espíritos tortuosos ou manifestamente mal formados insinuam, por pura maldade, que os garotos mentem muito, o que é injusto e cruel. Eles, por inevitável ingenuidade, não mentem nem faltam às promessas que fazem: temos de levar em conta a idade e o facto da estrutura mental não estar ainda formada, e entender que mudar constantemente de discurso, desdizer-se, aldrabar, não possui, na infância, um significado grave. A irrealidade faz parte dos cérebros em evolução e, com o tempo, hão-de tornar-se pessoas responsáveis: não podemos exigir-lhes que o sejam já, é necessário ser tolerante com os pequerruchos, afagá-los, perdoar-lhes. Merecem carinho, não crítica, uma festa na cabecinha do garoto que faz de primeiro-ministro, outra na menina que eles escolheram para as Finanças e por aí fora. Não é com dureza desnecessária e espírito exageradamente rígido que os educamos. No fundo limitam-se a obedecer a uns senhores estrangeiros, no fundo, tão amorosos, que mal fazem eles para além de empobrecerem a gente, tirarem-nos o emprego, estrangularem-nos, desrespeitarem-nos, trazerem-nos fominha, destruírem-nos? São miúdos queridos, cheios de boa vontade, qual o motivo de os não deixarmos estragar tudo à martelada? Somos demasiado severos com a infância, enervam-nos os impetuosos que correm no meio das mesas dos restaurantes, aos gritos, achamos que incomodam os clientes, a nossa impaciência é deslocada. Por trás deles há pessoas crescidas a orientarem-nos, a quem tentam agradar como podem à custa daqueles que não podem. Os portugueses, e é com mágoa que escrevo isto, têm sido injustos com a infância. Deixem-nos estragar, deixem-nos multiplicar argoladas, deixem-nos não falar verdade: faz parte da aprendizagem das mulheres e homens de amanhã. Sigam o exemplo do Senhor Presidente da República que paternalmente os protege, não do senhor Ex-Presidente da República, Mário Soares, que de forma tão violenta os ataca e, se vos sobrar algum dinheiro, carreguem-lhes os telemóveis para eles falarem uns com os outros acerca da melhor forma de nos deixarem de tanga. Qual o problema se há tanto sol neste País, mesmo que não esteja lá muito certo de o não haverem oferecido aos alemães? E, de pin no casaco que nos fanaram, isto é, de pin cravado na pele
(ao princípio dói um bocadinho, a seguir passa)
encorajemos estes minúsculos heróis com um beijinho, cheio de ternura, nas testazitas inocentes.
António Lobo Antunes
Perguntam-me muitas vezes por que motivo nunca falo do governo nestas crónicas e a pergunta surpreende-me sempre. Qual governo? É que não existe governo nenhum. Existe um bando de meninos, a quem os pais vestiram casaco como para um baptizado ou um casamento. Claro que as crianças lhes acrescentaram um pin na lapela, porque é giro
- Eh pá embora usar um pin?
que representa a bandeira nacional como podia representar o Rato Mickey
- Embora pôr o Rato Mickey?
mas um deles lembrou-se do Senhor Scolari que convenceu os portugueses a encherem tudo de bandeiras, sugeriu
- Mete-se antes a bandeira como o Obama
e, por estarem a brincar às pessoas crescidas e as play-stations virem da América, resolveram-se pela bandeirinha e aí andam, todos contentes, que engraçado, a mandarem na gente
- Agora mandamos em vocês durante quatro anos, está bem?
depois de prometerem que, no fim dos quatro anos, comem a sopa toda e estudam um bocadinho em lugar de verem os Simpsons. No meio dos meninos há um tio idoso, manifestamente diminuído, que as famílias dos meninos pediram que levassem com eles, a fim de não passar o tempo a maçar as pessoas nos bancos, de modo que o tio idoso, também de pin
- Ponha que é curtido, tio
para ali anda a fazer patetices e a dizer asneiras acerca de Angola, que os meninos acham divertidas e os adultos, os tontos, idiotas. Que mal faz? Isto é tudo a fazer de conta.
Esta criançada é curiosa. Ensinaram-me que as pessoas não devem ser criticadas pelos nomes ou pelo aspecto físico mas os meninos exageram, e eu não sei se os nomes que usam são verdadeiros: existe um Aguiar Branco e um Poiares Maduro. Porque não juntar-lhes um Colares Tinto ou um Mateus Rosé? É que tenho a impressão de estar num jogo de índios e menos vinho não lhes fazia mal. No lugar deles arranjava outros pseudónimos: Touro Sentado, Nuvem Vermelha, Cavalo Louco. Também é giro, também é americano, pá, e, sinceramente, tanto álcool no jardim escola preocupa-me. A ASAE devia andar de olho na venda de espirituosas a menores. Outra coisa que me preocupa é a ignorância da língua portuguesa nos colégios. Desconhecem o significado de palavras como irrevogável. Irrevogável até compreendo, uma coisa torcida, e a gente conhece o amor dos pequerruchos pelos termos difíceis, coitadinhos, não têm culpa, mas quando, na Assembleia, um deles declarou
- Não pretendo esconder nem ocultar
apesar da palermice me enternecer alarmou-me um nadita, mau grado compreender que o termo sinónimo seja complicado para alminhas tão tenras. Espíritos tortuosos ou manifestamente mal formados insinuam, por pura maldade, que os garotos mentem muito, o que é injusto e cruel. Eles, por inevitável ingenuidade, não mentem nem faltam às promessas que fazem: temos de levar em conta a idade e o facto da estrutura mental não estar ainda formada, e entender que mudar constantemente de discurso, desdizer-se, aldrabar, não possui, na infância, um significado grave. A irrealidade faz parte dos cérebros em evolução e, com o tempo, hão-de tornar-se pessoas responsáveis: não podemos exigir-lhes que o sejam já, é necessário ser tolerante com os pequerruchos, afagá-los, perdoar-lhes. Merecem carinho, não crítica, uma festa na cabecinha do garoto que faz de primeiro-ministro, outra na menina que eles escolheram para as Finanças e por aí fora. Não é com dureza desnecessária e espírito exageradamente rígido que os educamos. No fundo limitam-se a obedecer a uns senhores estrangeiros, no fundo, tão amorosos, que mal fazem eles para além de empobrecerem a gente, tirarem-nos o emprego, estrangularem-nos, desrespeitarem-nos, trazerem-nos fominha, destruírem-nos? São miúdos queridos, cheios de boa vontade, qual o motivo de os não deixarmos estragar tudo à martelada? Somos demasiado severos com a infância, enervam-nos os impetuosos que correm no meio das mesas dos restaurantes, aos gritos, achamos que incomodam os clientes, a nossa impaciência é deslocada. Por trás deles há pessoas crescidas a orientarem-nos, a quem tentam agradar como podem à custa daqueles que não podem. Os portugueses, e é com mágoa que escrevo isto, têm sido injustos com a infância. Deixem-nos estragar, deixem-nos multiplicar argoladas, deixem-nos não falar verdade: faz parte da aprendizagem das mulheres e homens de amanhã. Sigam o exemplo do Senhor Presidente da República que paternalmente os protege, não do senhor Ex-Presidente da República, Mário Soares, que de forma tão violenta os ataca e, se vos sobrar algum dinheiro, carreguem-lhes os telemóveis para eles falarem uns com os outros acerca da melhor forma de nos deixarem de tanga. Qual o problema se há tanto sol neste País, mesmo que não esteja lá muito certo de o não haverem oferecido aos alemães? E, de pin no casaco que nos fanaram, isto é, de pin cravado na pele
(ao princípio dói um bocadinho, a seguir passa)
encorajemos estes minúsculos heróis com um beijinho, cheio de ternura, nas testazitas inocentes.
António Lobo Antunes
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
frases que tinham tudo para dar certo #2
«Se ele não provar bem, a sanção é drástica.»
Ainda propósito do regime do contrato de trabalho a termo e da necessidade de o empregador fazer a prova das respectiva motivação.
N.B. - fica confirmado para quem, como eu, tinha dúvidas, o interesse e profundidade de uma aula de pós-graduação.
Ainda propósito do regime do contrato de trabalho a termo e da necessidade de o empregador fazer a prova das respectiva motivação.
N.B. - fica confirmado para quem, como eu, tinha dúvidas, o interesse e profundidade de uma aula de pós-graduação.
frases que tinham tudo para dar certo #1
«O empregador pode querer fazer uma coisa a três.»
A propósito da substituição indirecta de um trabalhador no contrato de trabalho a termo.
A propósito da substituição indirecta de um trabalhador no contrato de trabalho a termo.
coisas simples
According to South Korean government estimates,
there are about 154,000 North Koreans
who live in prison camps. But in each part of the world,
some people create their own detention houses
inside their bodies. Our body is supposed to be a home;
a sanctuary of the living soul. Yet some find their bodies
disgusting and dark and fragile so they tucked them
away from the sun. I once knew a girl whose voice
never encountered an echo. Her mouth was a dungeon.
Her words were trapped and dying. Darling, I see you.
You are not a bird. You have a song. Do not caged yourself.
Even birds do not deserve this. You deserve to fly
and explore this earth and its endless skyline.
My dearest, your existence is not a mistake.
You are not a crime scene. Stop locking yourself up
and wishing you were dead. Death holds nothing
but silence and numbness. This world is an asylum in itself.
What you should put behind bars are your insecurities,
your doubts, your past. Handcuffed your depression
and throw away the keys. Remember your heart
is your stronghold. It never lies. Now start smashing
those walls around you and let freedom
and beauty consume you.
irishjulienne’s, "throw away the keys"
there are about 154,000 North Koreans
who live in prison camps. But in each part of the world,
some people create their own detention houses
inside their bodies. Our body is supposed to be a home;
a sanctuary of the living soul. Yet some find their bodies
disgusting and dark and fragile so they tucked them
away from the sun. I once knew a girl whose voice
never encountered an echo. Her mouth was a dungeon.
Her words were trapped and dying. Darling, I see you.
You are not a bird. You have a song. Do not caged yourself.
Even birds do not deserve this. You deserve to fly
and explore this earth and its endless skyline.
My dearest, your existence is not a mistake.
You are not a crime scene. Stop locking yourself up
and wishing you were dead. Death holds nothing
but silence and numbness. This world is an asylum in itself.
What you should put behind bars are your insecurities,
your doubts, your past. Handcuffed your depression
and throw away the keys. Remember your heart
is your stronghold. It never lies. Now start smashing
those walls around you and let freedom
and beauty consume you.
irishjulienne’s, "throw away the keys"
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
coisas simples
«Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.»
Fernando Pessoa
Fernando Pessoa
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