segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

confirmando velhas teorias



The Head And The Heart - What Are You Doing New Year'€™s Eve?

e (como sempre) estava certa, foi tudo verdade

brincadeiras

«brincávamos a cair nos
braços um do outro, como faziam
as actrizes nos filmes com o marlon
brando, e depois suspirávamos e ríamos
sem saber que habituávamos o coração à
dor. queríamos o amor um pelo outro
sem hesitações, como se a desgraça nos
servisse bem e, a ver filmes, achávamos que
o peito era todo em movimento e não
sabíamos que a vida podia parar um
dia. eu ainda te disse que me doíam os
braços e que, mesmo sendo o rapaz, o
cansaço chegava e instalava-se no meu
poço de medo. tu rias e caías uma e outra
vez à espera de acreditares apenas no que
fosse mais imediato, quando os filmes acabavam,
quando percebíamos que o mundo era
feito de distância e tanto tempo vazio, tu
ficavas muito feminina e abandonada e eu
sofria mais ainda com isso. estavas tão
diferente de mim como se já tivesses
partido e eu fosse apenas um local esquecido
sem significado maior no teu caminho. tu
dizias que se morrêssemos juntos
entraríamos juntos no paraíso e querias
culpar-me por ser triste de outro modo, um
modo mais perene, lento, covarde. Eu
amava-te e julgava bem que amar era
afeiçoar o corpo ao perigo. caía eu
nos teus braços, fazias um
bigode no teu rosto como se fosses o
marlon brando. eu, que te descobria como se
descobrem fantasias no inferno, não
queria ser beijado pelo marlon brando e
entrava numa combustão modesta que, às
batidas do meu coração, iluminava o meu
rosto como lâmpada falhando

a minha mãe dizia-me, valter tem cuidado, não
brinques assim, vais partir uma perna, vais
partir a cabeça, vais partir o
coração. e estava certa, foi tudo verdade.»


valter hugo mãe, 'contabilidade'

para não dormir de um sono só



Carolina, nos seus olhos fundos
Guarda tanta dor, a dor de todo esse mundo

Eu já lhe expliquei, que não vai dar
Seu pranto não vai nada ajudar
Eu já convidei para dançar
É hora, já sei, de aproveitar
Lá fora, amor, uma rosa nasceu, todo mundo sambou, uma estrela caiu
Eu bem que mostrei sorrindo, pela janela, ói que lindo
Mas Carolina não viu

Carolina, nos seus olhos tristes, guarda tanto amor
O amor que já não existe

Eu bem que avisei, vai acabar
De tudo lhe dei para aceitar
Mil versos cantei pra lhe agradar
Agora não sei como explicar
Lá fora, amor, uma rosa morreu, uma festa acabou, nosso barco partiu
Eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela
E só Carolina não viu


Carminho e Chico Buarque - Carolina

confirmações

"Allowing yourself to be vulnerable is one of the most attractive things you can do."

Rick Owens

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

para dormir de um sono só



Sufjan Stevens - The Predatory Wasp

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

amor & coisas simples

Of everything I have seen,
it’s you I want to go on seeing:
of everything I’ve touched,
it’s your flesh I want to go on touching.
I love your orange laughter.
I am moved by the sight of you sleeping.

What am I to do, love, loved one?
I don’t know how others love
or how people loved in the past.
I live, watching you, loving you.
Being in love is my nature.


Pablo Neruda

e chega de músicas natalícias!



Neon Indian - Deadbeat Summer

coisas simples


quadras festivas na "terrinha".

domingo, 23 de dezembro de 2012

lambarices natalícias



best coast (bass cover) - up all night

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

coisas (literalmente) simples

«I have come to believe that the whole world is an enigma, a harmless enigma that is made terrible by our own mad attempt to interpret it as though it had an underlying truth.»

Umberto Eco

doping



New Order - Temptation

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

lambarices



The xx - Last Christmas

manhãs submersas



Mazzy Star - Into Dust

amor & coisas simples

Raw With Love

little dark girl with
kind eyes
when it comes time to
use the knife
I won't flinch and
I won't blame
you,
as I drive along the shore alone
as the palms wave,
the ugly heavy palms,
as the living does not arrive
as the dead do not leave,
I won't blame you,
instead
I will remember the kisses
our lips raw with love
and how you gave me
everything you had
and how I
offered you what was left of
me,
and I will remember your small room
the feel of you
the light in the window
your records
your books
our morning coffee
our noons our nights
our bodies spilled together
sleeping
the tiny flowing currents
immediate and forever
your leg my leg
your arm my arm
your smile and the warmth
of you
who made me laugh
again.
little dark girl with kind eyes
you have no
knife. the knife is
mine and I won't use it
yet.


Charles Bukowski

domingo, 16 de dezembro de 2012

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

lambarices



Nosaj Thing - Fog (Ages cover)

a propósito de pés encharcados



Wilhelm Kempff - Beethoven's Moonlight Sonata (1st mvt.)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

manhãs submersas



Brother Sun, Sister Moon - South Downs by Morning

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

socos no estômago

«O presidente da Rede Europeia Antipobreza, Sérgio Aires, costuma dizer que "quem é pobre não é livre". É uma daquelas verdades que todos intuímos, mas cujo alcance só conseguimos entender quando a realidade nos esmurra o estômago e a alma. A notícia que hoje publicamos na página 20 é uma valente sova. E uma imoralidade.

Resumidamente: a altruísta Associação Empresarial de Penafiel contratou quatro desempregados para fazerem de Pai Natal nas ruas da cidade durante todo o mês de dezembro. Paga-lhes 83 euros. Feitas as contas, dá 43 cêntimos por hora. A este magnífico honorário são acrescentados dois luxos: subsídio de transporte e alimentação.

Para ganharem os 83 eurinhos, os desempregados, operários de construção civil, passam seis horas e meia, de segunda a domingo, metidos em casinhas espalhadas por Penafiel, distribuindo balões e carinhos pelas crianças que passam.

Estes homens não são livres, porque a pobreza lhes rouba a capacidade de recusarem uma proposta de trabalho tão indigna quanto esta. O problema não está no serviço que prestam, está no que lhes é pago pelo que fazem. E que eles são forçados a aceitar, por viverem mergulhados numa vida que os atropelou e onde todos os cêntimos contam para garantir a sobrevivência deles e dos seus.

Thomas Carlyle, historiador e ensaísta escocês, dizia que "de qualquer tipo que seja a pobreza, ela não é a causa da imoralidade, mas o efeito".

Pereira Leite, presidente da Associação Comercial de Penafiel, terá seguramente muita dificuldade em entender esta relação de causa e efeito. Caso contrário, não lhe teria sequer passado pela cabeça oferecer 43 cêntimos por hora a quatro desempregados sem perceber que estava a promover uma gigante imoralidade.

Para o presidente da Associação Comercial de Penafiel, basta que o processo de candidaturas cumpra o estipulado por lei, como cumpriu. A seguir resta à Associação, como restou, selecionar os candidatos com melhor perfil para a tarefa. Tudo o que vá para além dessa tralha burocrática é pouco, ou nada, relevante.

Há nisto algo de terrivelmente cínico e imoral: os melhores candidatos para a "tarefa" são os que não podem recusar a "tarefa". Esta ou outra que lhes apareça pela frente. Há nisto algo de terrivelmente perturbador: uma entidade que, supostamente, existe para defender o comércio e a economia local não pode, não deve aproveitar-se da fraqueza dos outros para cumprir um objetivo, por muito de mérito que ele seja. Se a Associação não tem dinheiro para mais, contenta-se com menos. Puxa pela cabeça para achar outras soluções. Faz qualquer coisa que não humilhe pessoas. E que não humilhe a própria Associação.»


Paulo Ferreira, aqui

doping



M. Ward - Pure Joy

sobrevivência

«O mundo é assim, que quer? É forçoso encontrar um estilo. Seria bom colocar grandes cartazes nas ruas, fazer avisos na televisão e nos cinemas. Procure o seu estilo, se não quer dar em pantanas. Arranjei o meu estilo estudando matemática e ouvindo um pouco de música. – João Sebastião Bach. Conhece o Concerto Brandeburguês n.º 5? Conhece com certeza essa coisa tão simples, tão harmoniosa e definitiva que é um sistema de três equações e trê s incógnitas. Primário, rudimentar. Resolvi milhares de equações. Depois ouvia Bach. Consegui um estilo. Aplico-o à noite quando acordo às quatro da madrugada. É simples: quando acordo aterrorizado, vendo as grandes sombras incompreensíveis erguerem-se no meio do quarto, quando a pequena luz se faz na ponta dos dedos, e toda a imensa melancolia do mundo parece subir do sangue com a sua voz obscura… Começo a fazer o meu estilo. Admirável exercício, este.»

Herberto Helder, Os Passos em Volta

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

frases que tinham tudo para dar certo

'temos de o enterrar bem fundo para os pássaros não o comerem.'

a certa altura, numa peça de teatro, a propósito de um morto.

já ouvi desculpas melhores.

doping



Chromatics - Cherry

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

amor & coisas simples

'you must love in such a way that the person you love feels free.'

Thich Nhat Hanh

doping



Father John Misty - Nancy From Now On

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

e ainda a propósito

[At the beginning of the evening]
Vivian: In case I forget to tell you later, I had a really good time tonight.

Pretty Woman

junções perfeitas



M83 - Steve McQueen, Lost In Translation

n.b. - especial agradecimento ao grande Jô.

a propósito de um fim-de-semana



Kids Marshmallow Experiment

vamos lá sexta-feira, faz a tua magia



Fixers - Iron Deer Dream

coisas bonitas em dias feios



Patrick Wolf - Born To Die (Lana Del Rey cover)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

fuck this shit o'clock



Father John Misty - Hollywood Forever Cemetery Sings

lapidar

Eugénio de Andrade

«Um dia, a Inês Lourenço quis apresentar-me ao Eugénio de Andrade e oferecer-lhe um livro meu. Éramos amigos, ela adorava-o, ele já tinha a sua fundação e marcava muito a vida das pessoas da poesia no Porto. Eu sabia que ele tinha um trato muito antipático. Frequentava as leituras e demais eventos da fundação e sempre me impressionava o modo trombudo como assistia. A sala rodeada de retratos seus, as pessoas todas observando-o na expectativa de saber se dos seus dedos algum pássaro nascia.

Foi uma surpresa que a Inês Lourenço tivesse um livro meu na carteira. Foi uma surpresa que o tirasse da carteira no momento em que dizia ao poeta que queria muito apresentar-lhe um amigo, um jovem que considerava promissor. No mesmo instante, o Eugénio de Andrade tirou-lhe o livro da mão e, ainda mais trombudo, furioso como trovões, disse que estava farto de jovens e que não leria mais nada de ninguém. Disse que, se deixássemos ali aquela merda, aquela merda iria imediatamente para o lixo.A Inês queria encontrar um buraco para se meter. A mim, deu-me um certo ataque de riso. Não achei aquilo nada pessoal, mas fiquei nervoso, sem jeito. Era apenas uma indisposição, sim. Mas, na verdade, nada que não lhe fosse coerente.Hoje, percebo que gosto mais do Eugénio de Andrade do que gostava então. Mesmo antes do episódio antipático. Envelhecer é querer simplificar, tornar cada coisa mais límpida, elementar. Ganhar idade faz com que o Eugénio de Andrade deixe de ser apenas solar e passe a ser a pureza possível. Claro que ele devia angustiar por aspirar à pureza, distante dela como devia estar, como estamos todos. Mas a sua aspiração é o que conta e, no final, assim o identifica.Ler Eugénio de Andrade é passar a alma por água limpa. A sua poesia tem uma propriedade de higienização que nos permite a transcendência em vida, sem mais esquisitice que não o deslumbre.A Assírio & Alvim está a publicar, agora em grande e perfeição, a integral da poesia do Eugénio de Andrade. A cada volume, relemos os clássicos de sempre. Lapidares, como nascidos directamente da natureza do tempo. Como se o tempo fosse pronunciando o que lhe parece, maduro. Um tempo que se pensa, sábio. Alguns dos seus poemas não parecem trabalho de ninguém, são a respiração natural das coisas. A assombrosa manifestação do que demorou a eternidade para ter voz.Sempre vi o Eugénio de Andrade como um poeta ideal para os começos. Receitei os seus livros a todos os jovens, tão irónico parece isso agora, porque estive convencido de que não há melhor para seduzir para a leitura e a escrita. Hoje, percebo que os seus textos são sobretudo para quem quer chegar ao limite das palavras. Ali, onde elas acabam de ser palavras e passam a mexer nos nossos ossos com dedos.»


valter hugo mãe

coisas simples



Beach House - Take Care

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

doping



Belle And Sebastian - Song for Sunshine

certezas & coisas simples

«You don’t get to choose if you get hurt in this world, old man, but you do have some say in who hurts you. I like my choices. I hope she likes hers.»

John Green, The Fault in Our Stars

para dormir de um sono só



Mark Lanegan - Museum